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Atotô - [Safira Karina Reink Silva, PPGAS/MN/UFRJ]

17/11/2020

 
Para Luane Bento dos Santos
Imagem
“Decisa” - Foto tirada pela autora – setembro de 2020
Angústias e esperanças
Rondam a madrugada.

Estamos em recolhimento,
Ela disse
Minha irmã de Iemanjá
Trocando mensagens
Cibernéticas espacialidades
Fazem a gente se encontrar
E a gente encontra alento
Em musicas
Sonhos
Pesadelos
Poemas e desenhos
Livros e mensagens
Amizades
Irmandades
que estão de alma presente
Mas com o corpo noutro lugar
E nem tão cedo a gente se encontra
E nem tão cedo a gente se vê
Quanto tempo, pois é
Pois é, quanto tempo?

Guenta a rotina
Espera a vacina
Sorte de quem está com os seus
Entre os seus
Quem tem uma turma dentro de casa
Nem todo mundo tem
Tem gente sofrendo
De solidão ou de companhia
Tem muita mulher aflita
Mulher, menina, adulta e criança,
Adoecida, esmorecida
Com dor que não tem mais onde doer
De hoje, de ontem
De agora e de antes
E do que está para acontecer

Estamos recolhidas,
presas em mundos de intimidades
casas-paraíso ou casas-cativeiro-cruel
ou casas-de-sempre, só
alegria, trabalho, briga, barulho
A gente segue
vivendo a rotina
comida, trabalho, criança, faxina
correria, aflição, oração
reza, reza
reza pra não ficar doente
não virar número
num estado que dá de ombros
e finge ser nada de mais

Entre muros a vida
continua,
mas já mudou.
Sem as idas e vindas
Sem pendular
de lá pra cá
Sem a rua com sua euforia
seu cansaço e prazer
sua labuta bruta
ônibus, trem
dióxido, poluição,
aflição, afobação
cano de descarga, rodoviária
sufoco
lotação
supervia
amendoim, é três por um real
sinal
sono e simpatia
estação, travessia e construção.

A rua saiu da rotina
Virou exceção
A rua ainda mais suja
Mascarada
Apressada
Desconfiada
A rua é contaminação

“Sai que eu tô de rua!”
Grita a vizinha
Pro netinho e pra netinha
Bem em frente ao seu portão.

A rua é perigosa
Normalmente
Pra muita gente
Inda mais se é preto
se é mulher
se é do candomblé
se é o que é.
Umbanda, quimbanda, batuque
Filho de toda gira
Se anda com suas guias
Sabe bem como é andar
Alerta, assustado
Traçando um atravessado olhar do outro lado
transeunte apavorado
atravessando a rua pra não cruzar

E se vive nas quebradas
parado na esquina
Sabe que é padrão
Desviar do camburão
Sirene apagada,
Chega do nada
Pronto pra te pegar.

Pra muita gente
A rua já é medonha
Risco já é normalmente
Mas agora somou problema
Por fora do esquema
Um troço que não se vê
Que circula na comunidade
Risco maior pra quem não crê

Calado por dias
cresce em você
rodopia
e dá voltas
Entra na casa
Sem ser convidada
Invade teu quintal
Chega em quem não devia
Em quem te dá a mão
Vem de quem nem pressentia
O risco de sair
Pôr o nariz pra fora do portão
Vai naqueles que tu mais abraça
Beija
Alimenta
Amamenta
Ama
Acalenta
Galera que dorme contigo
Que divide um sentimento
come, brinca e faz festa
chora e ri
Mas o clima agora não é de festa
Festa é “a-g-l-om-e-r-a-ç-ã-o”
(Soletre-se, para caber no entendimento!)

Inverno rigoroso
Hora de hibernação
De fugir da confusão
criança não deve sair
Brincadeira, correria: não.
É coisa de menos fazer
“Não tome vento, menina”
“Fica em casa que a noite está fria”
(O dia também)
E aquela gripe, resfriado, rinite
Escarro, tosse, coriza
Meleca de toda guisa
Traz nova preocupação
Estamos recolhidas
Com nossas almas reunidas
E me vi assim também
Falo comigo mais a cada dia
E transito entre espaços e tempos
Becos e vielas
Portas trilhas e tramelas
Traçados na memória
Tanta história
Tantos gritos
Tantos medos
Silêncios, fugas, esquecimentos
perdidos, escondidos, enterrados
nos cantos,
ocultos no vão

São chaves velhas sangrando na mão
Portas trancadas
Baús de Retalhos
Mofo nos agasalhos

Espalho tudo no chão
Tento refazer meus passos
Minh’alma viaja
Por dias e horas
vagas
Por tantos lugares
Viajo e me encontro
Me encaro de lá
Com outras caras
Outras máscaras
Risos, sorrisos e lágrimas
Poucos mapas
Tantas feridas
Abertas, secretas
Estilhaços que ainda
Circulam e ardem no caminhar

Pra dor não me pegar de surpresa
Tento manter a vela acesa
Pra Orixá me guiar
Pra não perder a sanidade
Pra não me amargar na maldade
Das lembranças que nem queria lembrar
É tanta doença que esse mundo tem pra tratar

Nestes dias de isolamento
Meu rebento é o sol e eu sou um lamento
Ter uma cria é riso
É motivo pra continuar.
Me banho na luz e feito borboleta
Peço a Iansã que me leve no vento
Pra fora de mim, me deixe viajar
Que me mude o pensamento
Invada meu coração
Me permita voar
Peço a Iemanjá,
Odoiá
que me venha com água fria
O ori me molhar
que o mar
me alimente com uma canção
ao fim do dia
acalente o coração

A Oxum imploro que me geste
me embale, Mãe
me renasça
Oraieie

A Nanã que me enraíze
nas forças das ancestrais
Que a lama me purifique
Que o barro me edifique
Pra que eu possa me levantar

Peço a Ewa que faça
o sol entrar pelas frestas do muro e do portão
Que me deixe levar
Purifique o peito de tanta mágoa
e me conceda o horizonte pra me guiar.

No quintal eu me sento
Abro a esteira e me estendo
A Oxóssi que é o meu lugar
Arolê, Pai.

Debaixo das folhas eu peço
Me dê a palavra certa
Peço a Ogum o caminho aberto
Me ensina a me guiar.
Troco a água acendo folhas
e peço axé

Te falo, minha irmã querida
Se não fosse você aquela noite seria mais aflita
Umas palavras trocadas podem curar
Agradeço a você e àquelas outras
Mulheres amadas que não andam à toa
Grandes lobas farejam na vegetação
Me ensinam com suas pegadas a caminhar
A saltar, a uivar,
a amar e a ser amada
A sorrir e estender a mão
Apesar de tudo
Deitar no chão
Acender a fogueira e luzir
Ser luz na escuridão

Nessa distancia sigamos unidas
Recolhidas no mesmo roncó
Num barco que seja por nós guiado
E nos leve a serenos mares
Terras férteis, curadas por canções

Mesmo de corpo trancadas
Sigamos de almas plenas
Livres e serenas
Dando voltas no tempo
Deixando o vento levar
Nos encontrando lá e cá
Catando pedaços, fragmentos
conhecendo
descansando
e refazendo
Vamos nos recolhendo e crescendo
Girando mundo a nos encontrar
Procurando o fim desses males
Rezando pra Omolú no silêncio
rodar essa terra e curar.
​
Atotô!

​
Safira Karina Reink Silva [[email protected]] etnografa os quintais do Jardim Belo Horizonte, bairro da região de Morro Agudo, Baixada Fluminense, observando a relação entre quintais, casas e corpos, dimensões imbricadas, mutuamente construídas, materializadas nestas espacialidades vivas que se conectam entre si através dos fluxos e narrativas de seus moradores.



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    Autores

    Ana Cláudia Teixeira de Lima, PPGHCS/COC/Fiocruz

    Ana Paula Lino de Jesus, PPGAS/MN/UFRJ

    Ana Paula Rodrigues, PPGAS/MN/UFRJ

    Avohanne Isabelle Costa de Araújo, PPGHCS/COC/Fiocruz

    Anari Braz Bomfim, PPGAS/MN/UFRJ

    Antonia Gabriela Araújo, PPGAS/MN/UFRJ

    Enoc Merino Santí
    ​PPGAS/MN/UFRJ


    Felipe Moretti,
    PPGAS/MN/UFRJ 
    [1], [2]

    Gabriel Soares, PPGAS/MN/UFRJ
    ​

    Isabel de Oliveira Dessana,
    PPGAS/MN/UFRJ


    Jacques Ferreira Pinto, PPGHCS/COC/Fiocruz

    João Ramos
    PPGAS/MN/UFRJ


    Jorge Tibilletti de Lara, Ppghcs/Coc/Fiocruz

    José Roberto S. Saiol, PPGHCS/COC/Fiocruz
    ​
    Juliana Oliveira Silva, PPGAS/MN/UFRJ

    Laila Pedrosa da Silva, PPGHCS/COC/Fiocruz]

    Laura Lobato-Baars, PPGAS/MN/UFRJ

    ​Marcela Andrade, PPGAS/MN/UFRJ

    Mutua Mehinaku Kuikuro, PPGAS/MN/UFRJ – egresso

    Natália Carvalhosa
    PPGAS/MN/UFRJ


    Nelly Duarte Dollis,
    PPGAS/MN/UFRJ


    Pedro Souza Moreira da Silva, PPGHCS/COC/Fiocruz

    Ramon Feliphe Souza, PPGHCS/COC/Fiocruz

    Rebeca Capozzi, PPGHCS/COC/Fiocruz

    ​Safira Karina Reink Silva, PPGAS/MN/UFRJ

    Sandra Benites, PPGAS/MN/UFRJ [1], [2]

    Thayná Soares de A. Vieira, PPGHCS/COC/ Fiocruz

    Thayane Lopes Oliveira, PPGHCS/COC/Fiocruz

    Thiago Braga Sá, PPGAS/MN/UFRJ

    ​

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